Opus Pistorum, de Henry Miller – livros que nunca devia ter lido, 14

Obra Prima ou Escatologia? Literatura ou Pornografia?

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Opus Pistorum, de Henry Miller, começa com epígrafe de Canterbury: «Drop your cocks and grab your socks»* E durante três centenas de páginas faz-se o contrário: tiram-se as meias e pega-se nas piças. Assim mesmo, para que ninguém comece equivocado a leitura deste livro. É preciso ter estômago para chegar ao fim, mesmo a quem nada impressiona. Muito se discute se é uma obra Literária ou Pornográfica, como se a Literatura tivesse que ser uma cândida virgenzinha. O meu exemplar é igual àquele que se vê na imagem acima. Edição das Publicações Dom Quixote, na colecção Biblioteca de Bolso Dom Quixote.

Talvez Henry Miller não quisesse que esta obra viesse a ser publicada; talvez já nem se lembrasse da sua existência quando no dia 7 de Junho de 1980, em Los Angeles, partiu de um mundo onde já não havia nada que o pudesse surpreender. Opus Pistorum fôra escrito para Milton Luboviski, o proprietário de uma livraria de Hollywood, a Larry Edmunds Bookshop, e durante anos apenas existiram cinco exemplares. Três exemplares tinham sido vendidos clandestinamente, outro fôra oferecido, e o último guardado por Milton Luboviski em sua posse durante 40 anos.

Como todas as obras de Henry Miller, Opus Pistorum conheceu a luz da edição pública envolta em escândalo. Quando se pergunta porque é que os grandes autores não conseguem escrever descrições das cenas e episódios sexuais tão geniais quanto o resto da obra, talvez se esqueçam dos escândalos que as descrições sexuais provocam no público e nas consciências falsamente morais. Quantas soberbas descrições de corpos fruindo ficaram por escrever, ou foram escritas e depois reescritas e substituídas por pueris trocas de fluídos, ou simplesmente cortadas, para que não houvesse um escândalo.

Opus Pistorum é uma fotografia exaustiva do sexo, do sexo em todas as formas e feitios, desenho nu do desejo, atracção, erecção, e penetração. Sem pruridos morais, nem metáforas subtis. Alf e Johnny Thursday (ou Jean Jeudi), o seu companheiro de percurso pela «Avenida da Má-Vida», vão directos ao assunto: eles dizem foder com a mesma naturalidade com que dizem comer. Quando surge o apetite há que saciá-lo. E muitas vezes comer sem apetite.

«A forma como me trataram!» exclma Ann, fingindo um arrepio. «As depravações que fui obrigada a suportar! Não há palavras que o descrevam… nem me quero lembrar! Amarrada a uma cama! Abandonada, a à mercê de homens sem piedade! O que Sam não diria se alguma vez viesse a saber!»
Ann, a não ser que tenha cuidado, está sujeita a comprometer-se. Na América, quando uma mulher começa com devaneios deste género vai a um psiquiatra para lhe examinarem a cabeça. Em Paris é mais provável que acabe numa cama de hotel com dois rufias e um chulo munido de máquina de filmar…

Excerto de Opus Pistorum, de Henry Miller.

*Larguem as piças e calcem as meias.

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