Ninguém Escreve ao Coronel, de Gabriel García Márquez – livros que nunca devia ter lido, 19

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Gabriel García Marquéz

Ninguém Escreve ao Coronel foi o primeiro livro que li de Gabriel García Márquez. Nunca gostei do título em português, nem sei porque decidiram traduzi-lo assim do original em castelhano El coronel no tiene quien le escriba. Ninguém escrever ao Coronel é completamente diferente de o Coronel não ter quem lhe escreva. Lá por ninguém escrever ao Coronel não quer dizer que o Coronel não tenha quem lhe escreva; mas se o Coronel não tiver quem lhe escreva, então ninguém escreverá ao Coronel.

E o Coronel espera até à última página que lhe escrevam. E nós esperamos desde a primeira página que haja alguém que decida por fim escrever ao Coronel. O desgraçado Coronel espera em vão pela pensão prometida por um governo há muito derrubado, e todas as sextas-feiras vai ao posto dos correios em busca dela. Quantas vezes esperamos em vão a correspondência que secretamente sabemos que nunca chegará, e ainda assim esperamos, porque é essa esperança que nos dá alento para continuar? «Quem espera cem, também espera mais dez.» diz o coronel.

Hoje, dia 6 de Março faz 91 anos que nasceu Gabriel García Márquez, Gabo, para os fãs, amigos, e família. A primeira obra publicada por Gabo, no periódico El Espectador, foi o conto La tercera resignácion, a 13 de Setembro 1947. Apenas em finais de Maio de 1955 publicaria a sua primeira obra em livro, o romance La hojarasca. Também em Maio completam-se 51 anos da publicação de Cem Anos de Solidão [publicado em Buenos Aires, Argentina, pela editora Sudamericana; os primeiros 3000 exemplares a 30 de Maio de 1967]. O Prémio Nobel da Literatura foi-lhe atribuído há 35 anos – a 21 de Outubro de 1982. Publicou a 8 de Outubro de 2002 o primeiro volume de memórias romanceado Viver para contá-la, na Cidade do México – onde viria a falecer a 17 de Abril de 2014, sem que tenha escrito o segundo e terceiro volumes.

El coronel no tiene quien le escriba continua a ser a minha obra preferida de Gabriel García Márquez, a par de Crónica de uma Morte Anunciada. Tenho poucos livros de Gabriel García Márquez. Cem Anos de Solidão emprestei-o a fundo perdido, e a maioria dos outros que li foram-me emprestados a mim e devolvidos.

O médico quebrou o lacre dos jornais. Informou-se das notícias de destaque enquanto o coronel – de olhos fixos no seu compartimento – esperava que o administrador se detivesse diante dele. Mas não o fez. O médico interrompeu a leitura dos jornais. Olhou para o coronel. Depois para o administrador sentado à frente dos instrumentos do telégrafo e a seguir outra vez para o coronel.
– Vamos – disse.
O administrador não levantou a cabeça.
– Nada para o coronel – disse ele.
O coronel sentiu-se envergonhado.
– Não estava à espera de nada – mentiu. Lançou ao médico um olhar completamente infantil. – A mim ninguém me escreve.

Gabriel García Marquéz, in Ninguém Escreve ao Coronel.

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