Como escrever uma Crítica Literária – ou Resenha – de um Romance

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Gentêncio Persona (nascido em troca o passo, de origem a indicar, referir a sexualidade, no caso de não ser heterossexual), o maior (ou melhor, ou mais respeitado, ou mais conhecido, ou mais influente, ou mais qualquer coisa) escritor vivo (no caso de ainda o ser) da língua em que escreve (ou da rua, ou da cidade, ou do continente, ou da última – ou primeira – metade do século, ou da última década, ou da nova geração, ou de qualquer coisa) – ou, em conjunto ou alternativa – vencedor do prestigiado (famoso, de renome, respeitado, etc.) Prémio Opus Retributa. No caso de a obra analisada não ter qualquer interesse alongar a biografia do autor, referindo mesmo, se for preciso, o primeiro emprego, e aquela ligação familiar remota a uma figura histórica qualquer.

Autor (autor pode ser precedido do adjectivo genial ou outro qualquer do mesmo calibre, ou sucedido por de culto) do famoso (épico, ou desconhecido entre nós, ou incompreensivelmente ainda por traduzir, ou injustamente esquecido, ou injustamente outra coisa qualquer) romance (ou obra – neste caso ímpar, desigual, ou qualquer outro adjectivo coxo) Opus Magnum (não esquecer de adjectivar com polémica, se for o caso, e mesmo que não o seja) lança (sai agora, dá à estampa) a sua mais recente (ou a segunda, terceira, quarta, etc.) obra Opus Recent, depois de seis, sete anos sem publicar (convém referir quanto tempo passou desde a publicação da última obra em dois casos: se já passaram alguns anos – de preferência cinco ou mais – ou se a última obra fez sucesso) um thriller (mesmo que não tenha suspense nenhum fica sempre bem, mas pode ser substituído por outra palavra qualquer, de preferência em inglês, mas em último caso, em francês também fica sempre bem; se se optar por romance, não esquecer o adjectivo pungente) fantástico (ou magnífico, ou outro adjectivo grandiloqüente), onde revela as qualidades que sempre teve, um total controlo da narrativa (aqui podem juntar-se adjectivos e substantivos estruturais, como arquitectura, engenharia, rede, ou dinâmica, p.e.), e do enredo ou intriga (ou da construção das personagens, da descrição das paisagens, do conhecimento dos meandros e bastidores políticos, económicos, ou outros quaisquer).

Opus Recent é narrado por Persona Principalis (ou a várias vozes ou um monólogo interior, etc. – conforme o caso). Uma mistura (melting pot, ou combinação) de ingredientes explosivos (sexo, mentiras, drogas, morte, assassinato, intriga, álcool, fome, miséria, prostituição, etc), em doses descomunais. Com acção centrada em Urbem Localis, o romance desconstrói (desmascara, revela, faz a radiografia, o desenho, etc.) uma ideia feita qualquer sobre qualquer coisa, transportando-nos para o ambiente dos anos tal, ou do século tal, fazendo o retrato, ou a fotografia, ou a pintura, desse tal lugar e tempo. A fluência da narrativa (convém repetir a palavra narrativa pelo menos uma vez) prende o leitor da primeira à última página (ou desde a primeira página – ou mantém o leitor em suspenso), acaba (termina) em grande com um desfecho inesperado (ou imprevisível). Aqui podem fazer referências à segurança estilística, reforçando a ideia do controlo narrativo que demonstra a maturidade literária do autor, e que já haviam referido acima por outra palavras. Referir também uma ou duas personagens – Femina Fatalis, Amicus Perfidus – o nome chega, mas pode juntar-se-lhe a relação que têm com a Persona Principalis se a houver. Pode referir-se o número de páginas, por exemplo: 215 páginas que mantém o leitor refém desde o início. Ou 215 páginas de puro prazer. Ou 215 páginas magnificamente esgalhadas (ou outra palavra qualquer que não esteja verdadeiramente relacionada com livros, romances, escrita, ou literatura – e que não se perceba bem o que é que o crítico realmente quer dizer). Se tiver menos de 100 páginas não esquecer de acrescentar o adjectivo breve (ou curto) à primeira vez que se escreve a palavra romance (ou em alternativa chamar-lhe novela – ainda há algum crítico que saiba a diferença entre uma coisa e outra, se em inglês chamam às duas novel?).

Adjectivos a ter em conta, conforme o caso, para abrilhantar ou dar volume (ou palha) à crítica: hilariante (basta que tenha duas ou três frases de humor óbvio), controverso (desde que refira o nome de um político qualquer, ou de figuras públicas, pelo próprio nome ou através de petit noms mais ou menos descarados, já caídos no esquecimento), icónico (desconfio que nenhum crítico lhe conheça o significado), perfeito (no caso de ter capítulos muito pequenos e quase todos do mesmo tamanho), imprescindível (imprescindível utilizar este adjectivo no caso de ser o terceiro ou quarto crítico a falar dele na última semana; ou nos casos em que se trata da reedição de um clássico, ou da primeira tradução de uma obra de um autor estrangeiro – uma obra há muito em falta, convém reforçar a ideia, evidentemente: neste caso o primeiro advérbio de modo a usar, logo nas primeira linhas da crónica é o advérbio finalmente), apoteótico (tem uma narrativa caótica que 99% das pessoas não vai entender e todos os que desistirem da leitura darão a sua opinião), prodigioso (aborda uma temática qualquer que não interessa nem ao menino jesus), cosmopolita (a acção decorre numa grande metrópole – convém sempre reforçar as ideias), multicultural (basta que tenha algum calão lá pelo meio, e duas ou três personagens, que não interessam para nada na história, originárias doutro local qualquer), essencial (essencialmente fica bem na estante de qualquer sala de estar).

Duas (ou três) estrelas em cinco, depois de dois parágrafos a fazer a estrondosa apologia da obra e do autor. Ou quatro (ou cinco) estrelas, após uma crítica negativa (igual ao exemplo acima mas com adjectivos menores). Convém que não exista correlação entre a resenha qualitativa e a crítica quantitativa, ou seja, entre o texto e as estrelas.

Ah! Que saudades de quando os críticos literários liam as obras que criticavam e pareciam saber do que falavam!

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