Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll – livros que nunca devia ter lido, 17

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Nós leitores vorazes* temos esta mania de impingir livros uns aos outros, e muitas vezes caímos na tentação de impingir livros a pessoas que – não sabemos porquê – ficam aborrecidas. Quando comprei a edição conjunta – a que se vê na imagem, da Relógio D’Água – de As Aventuras de Alice no País das Maravilhas, e Alice do Outro Lado do Espelho, de Lewis Carroll, comprei logo três exemplares, um para mim, dois para impingir. Eram tão baratos que nem queria acreditar. Nesse dia comprei também Sylvie e Bruno, igualmente de Lewis Carroll, outra pechincha, da mesma editora. Por quatro livros dei uma nota que muitas vezes não dá para comprar 1/3 de livro. Mas eu já tinha as três obras noutras edições? O que é que isso importa agora? E estes belíssimos exemplares vêm com as ilustrações originais de Sir John Tenniel, e de Harry Furniss.

Há um momento na vida em que todos os bibliómanos se questionarão se gostam mais de livros ou de obras, embora provavelmente gostem sempre tanto de uma coisa como da outra. Os bibliófilos, esses são casos perdidos na maioria das vezes. Para eles os livros são jóias que não usam e que têm como única utilidade ocupar cofres nos bancos. Nós os bibliómanos gostamos muito de dar livros. Emprestar é que não! Podemos abdicar da posse daquele livro especial para oferecer a um amigo especial, ou até a um estranho, não nos peçam é emprestado. Enquanto forem nossos são só nossos.

Ler é como adormecer à beira-rio e ver passar o Coelho Branco que mais ninguém vê. É por isso que nós, leitores vorazes, gostamos tanto de impingir livros aos outros. Quando damos um livro não é bem um livro que damos, é uma visão. Ver sozinho é loucura, ver acompanhado é revelação. Não damos livros porque pretendamos que aqueles a quem os damos passem a ver o mundo como nós, porque sabemos que a visão do mundo que cada um tem, é única. Damos livros porque há paisagens tão belas que nos sentimos compungidos a revelá-las aos outros – ainda que durante algum tempo as guardemos só para nós – para que os outros as vejam por si.

Que mundo maravilhoso esse onde se podem comprar dois livros para nós e dois livros para impingir. Eu se pudesse passava as tardes a impingir livros, as manhãs a ser impingido de livros, e as noites a ler livros. Só dormia ao crepúsculo ou nas tardes modorrentas de Verão. Impingir livros é das coisas mais maravilhosas que há. Já impingi livros de todos os géneros, feitios, e tamanhos. Adoro quando me impingem livros, e adoro livros impingidos! É verdade que tenho poucos livros impingidos, e nunca sei como agradecer quando me impingem um livro. Mas o sentido profundo disto tudo é isto tudo não ter sentido nenhum. Impingir livros não é apenas dar livros. Impingir livros é também – tristemente a maioria das vezes – falar sobre eles. Espero que não se importem por virem aqui ser impingidos com livros.

– O que é uma Corrida Eleitoral? – inquiriu Alice, não tanto por querer saber, mas porque o Dodó se calara como se pensasse que alguém devia falar, e mais ninguém parecia disposto a dizer fosse o que fosse.
– Ora, a melhor maneira de explicar é fazê-la – respondeu o Dodó. (E, como também vocês poderão querer experimentá-la, num dia invernoso, vou contar-vos como procedeu.)
Primeiro, desenhou uma pista de corridas, numa espécie de circunferência («não interessa a forma exacta», disse ele), e depois colocou cada um deles num ponto da pista. Não havia nenhum «um, dois, três, já!», mas principiava-se a correr quando se queria, e desistia-se também quando apetecia, de maneira que não era fácil perceber quando terminava a corrida. Todavia, após terem corrido cerca de meia hora, e estarem de novo secos, o Dodó gritou de repente:
– Acabou a corrida!
E todos o rodearam, ofegantes, a perguntar: – Mas quem é que ganhou?
O Dodó só pôde responder a esta questão depois de pensar longamente, e permaneceu durante muito tempo com um dedo apoiado na testa (a posição em que se costuma ver Shakespeare, nos retratos), enquanto os outros aguardavam em silêncio. Por fim, disse:
– Ganhámos todos e todos devemos receber prémios.

Lewis Carroll, in Alice no País das Maravilhas.

*Expressão surrupiada a um e-mail de um maravilhoso amigo que decidiu presentear-me com livros e a quem não sei como agradecer. Obrigado!

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Fiz anos, algo que acontece com demasiada frequência e que, embora pareça demasiado fácil, é cada vez mais difícil. Obrigado a todos que, de uma forma ou outra, se lembraram de mim. Deixo-vos com um excerto de um dos meus livros dilectos.

– Portanto, aqui vai uma pergunta para ti. Que idade disseste que tinhas?
Alice fez umas breves contas de cabeça e respondeu:
– Sete anos e seis meses.
– Está errado! – exclamou Humpty Dumpty com um ar de triunfo. – Tu nunca disseste isso.
– Pensei que querias perguntar: «Que idade tens?» – explicou Alice.
– Se eu quisesse perguntar isso, tê-lo-ia dito – objectou Humpty Dumpty.
Alice não queria começar outra discussão, por isso não disse nada.
– Sete anos e seis meses! – repetiu Humpty Dumpty, pensativo. – Que idade incómoda! Se tivesses perguntado a minha opinião, eu ter-te-ia dito: «Pára aos sete anos»… Mas agora é tarde de mais.
– Eu nunca peço conselho para crescer – respondeu Alice, indignada.
– Por uma questão de orgulho? – perguntou o outro.
Alice ficou ainda mais indignada com esta sugestão e respondeu:
– O que eu quero dizer é que uma pessoa não pode impedir-se de crescer.
– Uma talvez não possa – respondeu Humpty Dumpty -, mas duas podem. Com a ajuda adequada é possível parar de crescer aos sete anos.
– Que lindo cinto que traz! – disse Alice de repente. (Já tinham falado o suficiente sobre o assunto da idade, pensou, e se a regra era escolherem assuntos à vez, agora era a vez dela.) – Ou antes – corrigiu, depois de pensar melhor -, uma linda gravata, queria eu dizer… Não, um cinto… Desculpe! – concluiu, consternada, pois Humpty Dumpty parecia verdadeiramente ofendido, e ela começou a desejar não ter escolhido o assunto.
«Se ao menos eu soubesse onde fica o pescoço e onde fica a cintura!», pensou Alice.
Era visível que Humpty Dumpty estava muito zangado, embora não dissesse nada durante um minuto ou dois. Quando voltou a falar, foi num tom de profunda ofensa.
– É a maior das insolências uma pessoa não saber distinguir uma gravata de um cinto! – disse por fim.
– Eu sei que mostrei ser muito ignorante – confessou Alice, com um ar tão humilde que Humpty Dumpty abrandou o tom.
– É uma gravata, menina, e muito bonita que ela é, como tu dizes. Foi um presente do Rei e da Rainha Branca. Nem mais!
– A sério? – replicou Alice, muito satisfeita por achar que descobrira afinal um bom assunto.
– Ofereceram-ma – continuou Humpty Dumpty com ar pensativo, cruzando as pernas e segurando um dos joelhos com as mãos -, ofereceram-ma… como presente por não fazer anos.
– Perdão? – perguntou Alice, confusa.
– Não estou ofendido – respondeu Humpty Dumpty.
– O que eu queria saber é o que é um presente por não fazer anos.
– É um presente oferecido num dia em que não fazemos anos, é claro.
Alice ficou uns instantes a pensar. Por fim, disse:
– Eu prefiro os presentes no dia em que faço anos.
– Não sabes o que estás a dizer! – exclamou Humpty Dumpty. – Quantos dias tem um ano?
– Trezentos e sessenta e cinco – respondeu Alice.
– E quantas vezes fazes anos?
– Uma.
– E se tirares um a trezentos e sessenta e cinco, quantos ficam?
– Trezentos e sessenta e quatro, é claro.
Humpty Dumpty parecia desconfiado.
– Prefiro fazer a conta no papel – disse ele.
Alice não pôde deixar se sorrir ao tirar o seu bloco de notas e fazer a conta para ele:

365
-1
364

Humpty Dumpty pegou no bloco e observou-o atentamente.
– Parece que está bem… – começou a dizer.
– Mas está a segurar nele ao contrário! – disse Alice.
– É verdade! – concordou Humpty Dumpty alegremente, quando Alice endireitou o bloco. – Bem me parecia que havia qualquer coisa estranha. Como eu ia dizendo, parece que está bem… Embora eu não tenha agora tempo de examinar a conta com atenção… E isto mostra que há trezentos e sessenta e quatro dias em que podes receber presentes quando não fazes anos…
– Sem dúvida – respondeu Alice.
– E só um em que podes receber presentes por fazeres anos. Que glória para ti!
– Não sei o que quer dizer com «glória» – disse Alice.
Humpty Dumpty sorriu com um ar de desprezo.
– É claro que não sabes… senão quando eu te disser. O que quero dizer é: «Ora aí está um belo argumento para te derrotar!»
– Mas «glória» não quer dizer «um belo argumento para te derrotar» – objectou Alice.
– Quando eu utilizo uma palavra – disse Humpty Dumpty com um ar trocista – ela significa exactamente aquilo que eu quero… Nem mais nem menos.
– A questão é saber se pode fazer com que as palavras signifiquem coisas tão diferentes – disse Alice.
– A questão é saber quem é que manda… Mais nada – corrigiu Humpty Dumpty.

Lewis Carroll, em Alice do Outro Lado do Espelho.

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