A Criação do Mundo – livros que nunca devia ter lido, 7

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(7) Comprei A Criação do Mundo, de Miguel Torga, numa Feira do Livro Usado, em Coimbra. Não sei se haveria algum livro na Feira que tivesse sido usado noutra função que não a de enchimento de estantes de livrarias ou caixotes de livros não vendidos. Quando penso n’ A Criação do Mundo penso sempre na primeira vez que procurei esta obra numa livraria. Entrei à procura de Orfeu Rebelde. Perscrutei as estantes, mas não encontrei nada. Dirigi-me então à rapariga que detrás do computador pachorrento registava as compras dos clientes, lhes apresentava a conta, e perguntava maquinalmente se queriam embrulho. Não sabia em que embrulhada me ia meter.

– Queria saber se têm o livro Orfeu Rebelde… ou A Criação do Mundo – lembrei-me de acrescentar um título, não fosse demais importunar a rapariga apenas por um livro – de Miguel Torga, esclareci.
– Miguel Torga?! – Perguntou estupefacta. – É algum livro novo, saiu há pouco tempo?
– Não, já saiu há uns anitos.
– É português ou estrangeiro?
– É espanhol, de Cervantes, perto de Unamuno – respondi-lhe, enquanto me questionava como era possível que em Coimbra houvesse alguém a trabalhar numa livraria que não tivesse, pelo menos, ouvido falar de Miguel Torga.
– Não sei onde fica. – Perguntou a uma colega que vagueava por entre as estantes se tinha chegado algum livro sobre órfãos, que encolheu os ombros, desinteressada.
– Deixe-me procurar aqui. – Apontava enfaticamente para o computador. Começou a teclar, numa impressionante economia do uso dos dedos, que hoje se diria austera, apenas com o indicador direito. Eu tentava a todo o custo não olhar para ela, para conseguir reprimir a vontade de rir. Pouco depois, olhou para mim triunfal, e exclamou:
– Diz aqui que não existe! Tem a certeza de que é assim que se chama?!
– Posso ver?
Miguel Toga.
– Fala aí um érre. É T-O-R-G-A.
Voltou a repetir o processo de busca.
– Agora já existe… mas não temos nenhum livro! Devem estar para chegar.
– Pois…
– Quer que lhe telefone quando chegarem?!
– Não, não é preciso… Eu vou passando. Olhe, já que não têm o que eu queria, vou aproveitar para comprar outros.
Depois de ter um saco com três romances, não entres tão depressa nessa noite escura, de António Lobo Antunes, acabado de sair, e que comprei mais por ter um título que é um verso de Dylan Thomas, que por interesse, Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Márquez, e um romance qualquer de Paulo Coelho, que ao final da segunda ou terceira página me confirmou a certeza de que não andava a perder nada, nem gastaria mais tempo ou dinheiro com livros dele, despedi-me com outra certeza: nunca mais entraria naquela livraria.
Apenas três anos depois consegui finalmente comprar as duas obras. Foi na tal Feira do Livro Usado. Da velhinha edição de autor, da Coimbra Editora. A Criação do Mundo, originalmente publicada em 5 volumes, era a 2.ª edição conjunta, de 1997. Orfeu Rebelde, a 3.ª edição, de 1992.

O mestre, encabado nos socos abertos e abafado no varino de surrobeco, sempre atido ao venha a nós, recebia-nos conforme a pingadeira.
– O senhor passou bem?
– Olá, seu pardal! Ainda agora?
– Trouxe uma cesta de batatas, que já entreguei à senhora Marquinhas, e demorei-me um migalho…
– Bem, bem… Amanhã vê se desembelinhas essas pernas.
Quando a dúzia de ovos tardava, ou o fumeiro parecia esquecido, ele próprio lembrava a falta. E até os mais pobres apareciam de saquitel ao ombro. Mas havia dar, e dar… E o tom de acolhimento variava.
– E tu, meu figurão?
– Fui prender a burra…
– A burra tem as costas largas!
E tinha. (…)
O mestre é que não queria saber de devaneios.
– Por hoje, as coisas ficam assim. Mas volta a repetir a façanha, e verás o que te acontece!*

*Excerto de A Criação do Mundo, de Miguel Torga.

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