1984, de George Orwell – livros que nunca devia ter lido, 13

Big Brother is Watching you... Qualquer semelhança com a realidade não é pura coincidência!

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A morte do líder querido, Kim Jong-il, reavivou-me na memória a história de Winston Smith, protagonista de 1984, romance distópico de George Orwell. Qualquer semelhança entre a Oceânia, em 1984, e a Coreia do Norte, pode não ser pura coincidência. Coincidência é o romance ter sido escrito, ou acabado, no ano em que o grande líder eterno, Kim Il-sung, chegou ao poder. 1948.

Num momento em que a Europa caminha a passos lestos para um paradigma que, à semelhança da China, junta o pior de dois mundos, o pior do capitalismo e o pior do comunismo, esta é uma obra a ter em atenção. Para sabermos aquilo que nos espera, ou para sabermos aquilo que temos que evitar que aconteça. O Grande Irmão, Big Brother, indica-nos o caminho, diz o que temos que pensar, como temos que o pensar, de preferência não devemos pensar, o que temos que fazer, como o fazer, não importa porque é que temos que o fazer, como temos que viver, onde temos que viver, com quem podemos viver. Só há um pensamento, só há uma visão do mundo, só há um destino, só há um caminho.

Neste grande plano desenhado pelo Grande Irmão, o grande líder, querido e eterno, as pessoas são um pequeno, pequeníssimo pormenor, sem importância nenhuma. As pessoas já não são pessoas, pensar é crime (o duplopensar), amar é proibido (a cópula só pode ter fins reprodutivos, e não pode envolver emoções: é apenas um acto físico ao serviço do partido), e quem vai contra a ideologia (crimepensar, o mais grave dos crimes, que no fundo encerra todos os outros) é simplesmente apagado, transforma-se uma impessoa (uma pessoa que a máquina do partido se encarrega de fazer desaparecer de todo e de qualquer registo, de modo a que não só deixe de existir, mas de maneira a que nunca tenha existido). Qualquer semelhança entre o mundo do Grande Irmão, com a sua ideia única, o seu caminho único, e a sua visão única, as únicas admissíveis, as únicas possíveis, e o trilho da Austeridade da Europa de Sarkozy e Merkel, e companhia, do não há alternativa, não é pura coincidência.

Há sempre outro caminho, há sempre outra solução, há sempre alternativa. Enquanto houver um homem ou uma mulher, como Winston Smith ou Júlia, que se recusem a não-pensar e a não-sentir, haverá sempre outro caminho. Ainda que no fim a grande máquina trucidante nos engula com as suas mandíbulas, cabe-nos resistir. Resistir sempre, a qualquer tipo de autoritarismo, de esquerda ou de direita, dos governos ou dos mercados, do comunismo ou do capitalismo, do socialismo ou do fascismo. Resistir sempre, resistir a qualquer opressão.

 

– Como é que vai o Dicionário? – disse Winston, erguendo a voz para se fazer ouvir no meio do barulho.
– Vai avançando devagar – retorquiu Syme. – Estou agora nos adjectivos. É fascinante.
O rosto iluminara-se-lhe assim que ouvira falar na novilíngua. Arredou para o lado a marmita, agarrou com uma das delicadas mãos o naco de pão, com a outra o queijo, e debruçou-se por cima da mesa para poder falar sem ser aos gritos.
– A Décima Primeira Edição vai ser a definitiva – disse. – Estamos a dar ao idioma a sua forma final, a forma que há-de ter quando ninguém falar nenhuma outra língua. Quando chegarmos ao fim, pessoas como tu terão que aprendê-la de novo. Julgas com certeza que a nossa principal tarefa é inventar palavras novas. Mas não é nada disso! Estamos é a destruir palavras, dezenas, centenas de palavras por dia. Estamos a reduzir a língua ao seu esqueleto.
(…)
Não compreendes a beleza da destruição de palavras. Sabias que a novilíngua é a única língua do mundo cujo vocabulário diminui ano após ano?
Winston sabia, claro. Sorriu, esperando que o seu sorriso traduzisse um assentimento, pois não se atrevia a dizer o que quer que fosse. Syme trincou mais um bocado do pão escuro, mastigou-o rapidamente e prosseguiu:
– Não vês que a finalidade da novilíngua é precisamente restringir o campo do pensamento? Acabaremos por fazer com que o crimepensar seja literalmente impossível, pois não haverá palavras para o exprimir. Todos os conceitos de que possamos ter necessidade serão expressos, cada um deles, exclusivamente por uma palavra, de significação rigorosamente definida, sendo eliminados e votados ao esquecimento todos os sentidos subsidiários.

George Orwell, in «1984»

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